Romper o tendão de Aquiles costuma ser um divisor de águas para quem pratica esportes, especialmente corrida.
Muitos pacientes chegam ao consultório com a mesma dúvida e medo:
“Doutor, eu vou conseguir voltar a correr?”
A boa notícia é que a nossa experiência aliada a ciência mais atual confirma que, sim, a maioria das pessoas consegue voltar ao esporte após a ruptura do tendão de Aquiles. Mas esse retorno não acontece por acaso e depende de decisões corretas ao longo do tratamento.
Neste artigo, explico o que os estudos mais recentes mostram e quais são os 3 pilares fundamentais para um retorno bem-sucedido à corrida. Por isso, continue lendo!

O que a ciência diz sobre voltar a correr após a ruptura do Aquiles
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 analisou milhares de pacientes que sofreram ruptura do tendão de Aquiles e foram submetidos a tratamento cirúrgico.
Meta-análises são consideradas o mais alto nível de evidência científica, pois reúnem e analisam os melhores estudos disponíveis sobre um tema.
Principais resultados do estudo
- Cerca de 77% dos pacientes retornaram ao esporte
- O tempo médio para retorno foi de aproximadamente 8 meses
A maioria das pessoas volta a praticar esportes — inclusive corrida —, mas não é um processo rápido nem simples. Em geral, o retorno ocorre entre 6 e 9 meses, podendo levar mais tempo em alguns casos.
E quando falamos de atletas profissionais? Um capítulo à parte
Quando o assunto é atleta profissional, especialmente de alto rendimento, como no basquete, futebol ou atletismo, é fundamental abrir um capítulo à parte.
Isso porque o nível de exigência física, a frequência de treinos, a velocidade, a potência e as mudanças rápidas de direção fazem com que pequenas adaptações biomecânicas, muitas vezes imperceptíveis para o paciente recreacional, tenham impacto direto no desempenho esportivo.
Estudos mostram que, mesmo após o retorno ao esporte, atletas profissionais podem apresentar:
- redução de potência do tornozelo
- menor explosão
- mudanças na mecânica de corrida e salto
- queda de performance
Ou seja, retornar ao esporte não significa, necessariamente, retornar ao mesmo nível competitivo imediatamente.
Mas é importante deixar algo muito claro, mesmo nesses casos, o retorno ao esporte de alto nível NÃO é impossível. Na NBA, por exemplo, alguns atletas conseguiram retornar após ruptura do tendão de Aquiles, com diferentes níveis de sucesso, como:
- Kevin Durant – retornou ao mais alto nível competitivo, inclusive sendo campeão da NBA após a lesão
- Kobe Bryant – voltou a jogar após a ruptura, embora com impacto progressivo no desempenho
- Dominique Wilkins – um dos primeiros grandes exemplos de retorno bem-sucedido na NBA
Esses exemplos mostram que, mesmo em cenários extremos de exigência física, com cirurgia adequada, reabilitação altamente especializada e dedicação absoluta do atleta, o retorno é possível — ainda que o desempenho final varie de caso para caso.

Por que algumas pessoas voltam a correr e outras não?
A própria literatura científica e a experiência clínica mostram que existem três fatores decisivos para que o paciente esteja dentro desse grupo que retorna ao esporte.
Cirurgia bem realizada: a base de todo o processo
O primeiro grande pilar para um bom retorno à corrida é uma cirurgia bem executada, realizada por um cirurgião com experiência específica em lesões do tendão de Aquiles.
Uma cirurgia adequada permite:
- Restauração correta do comprimento e da tensão do tendão
- Menor risco de complicações
- Uma base anatômica melhor para a reabilitação
Minha preferência: técnica minimamente invasiva
Em minha prática, dou preferência à técnica minimamente invasiva. Sempre que bem indicada, ela tende a causar menor agressão aos tecidos, reduzir complicações de pele e infecciosas (que são uma verdadeira tragédia nesse cenário) e facilitar a recuperação funcional.
Aqui vai um ALERTA:
Essa técnica não é indicada para todos os tipos de lesão ou todos os pacientes. Cada caso deve ser avaliado individualmente, para que a indicação seja feita com máxima precisão.
Saiba mais sobre técnica minimamente invasiva para ruptura do tendão de Aquiles.
Veja também os vídeos explicativos no YouTube: Canal Dr. Rodrigo Macedo, acesse a playlist.
Reabilitação especializada e integrada ao cirurgião
O segundo pilar é a reabilitação — e aqui existe uma diferença enorme entre: “fazer fisioterapia” e ser reabilitado por um profissional experiente em tendão de Aquiles.
O respeito às etapas e o conhecimento da anatomia e biologia evolutiva da cicatrização tendínea, permite que o profissional vá introduzindo os exercícios e atividades de maneira correta à medida em que o tendão vai amadurecendo o processo cicatricial. Isso muda o jogo!
Além disso, um dos pontos que considero mais relevantes nessa etapa do processo é a interação constante entre o médico e o fisioterapeuta. Essa comunicação permite:
- Ajustar a carga no momento certo
- Segurar um pouco mais alguns pacientes
- Avançar com segurança outros
Apesar de existirem protocolos bem definidos, a reabilitação não é uma receita de bolo. As evoluções são altamente individuais, e essa análise contínua faz toda a diferença no retorno à corrida.
O fator mais importante: o comprometimento do paciente
O terceiro ponto — e o mais importante de todos na minha opinião é o próprio paciente.
A reabilitação após a ruptura do tendão de Aquiles é longa, geralmente entre 8 e 9 meses, podendo se estender ainda mais em alguns casos e esse processo exige: dedicação diária, respeito às fases da reabilitação e constância ao longo de meses. Virtudes que podem ser desenvolvidas ao longo da jornada, quando o paciente não as possui, mas que fazem toda a diferença.
O que observo na prática?
Pacientes que seguem corretamente as orientações, respeitam o tempo biológico do corpo e mantêm disciplina ao longo do processo são exatamente aqueles que costumam ter o retorno mais satisfatório à corrida e às atividades esportivas.
Conclusão: afinal, é possível voltar a correr após romper o Aquiles?
Sim, é possível — e a ciência confirma isso.
Mas o sucesso depende de boas escolhas ao longo do caminho:
- Cirurgia bem realizada
- Reabilitação de qualidade
- Comprometimento real do paciente
Assim, quando esses três fatores estão alinhados, as chances de um retorno seguro e funcional à corrida aumentam significativamente.
FAQ
- Quanto tempo demora para voltar a correr após romper o tendão de Aquiles?
Em média, 8 meses, podendo variar entre 6 e 12 meses, dependendo do caso. - Todo mundo volta a correr no mesmo nível de antes?
Não necessariamente. Muitos retornam ao esporte, mas nem todos no mesmo nível pré-lesão. - A técnica minimamente invasiva é sempre a melhor?
Não. Ela é excelente quando bem indicada, mas cada caso precisa ser avaliado individualmente. - A fisioterapia faz tanta diferença assim após a cirurgia para rotura do tendão de Aquiles?
Sim. A reabilitação especializada e bem conduzida é tão importante quanto a cirurgia.
- A força da perna volta ao normal?
Na maioria dos casos, sim. Porém, pode haver pequena perda de força ou resistência, especialmente se a reabilitação não for completa. Programas de fortalecimento progressivo são essenciais para minimizar esse risco.
- Existe risco de romper o tendão novamente?
Sim, mas o risco é baixo quando:
– O tempo de cicatrização é respeitado;
– A reabilitação é bem conduzida;
– O retorno à corrida é progressivo, sem sobrecarga precoce.
Voltar antes do tempo é um dos principais fatores de re-ruptura.
Referências científicas
- Zellers JA, Carmont MR, Grävare Silbernagel K.
Return to play post-Achilles tendon rupture: a systematic review and meta-analysis.
British Journal of Sports Medicine, 2016. - Cofano E et al.
Return to sport after acute Achilles tendon rupture: systematic review.
Journal of Experimental Orthopaedics, 2025. - Jandacka D et al.
Do athletes alter their running mechanics after an Achilles tendon rupture?
Journal of Foot and Ankle Research, 2017.
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