INTRODUÇÃO
A deformidade do pé plano ou pé chato no adulto, é uma condição debilitante crônica e progressiva. Essa patologia pode estar associada à disfunção de múltiplas estruturas responsáveis pela manutenção do arco medial, conhecido com a curvinha do pé, como demonstrado na figura 1.
As primeiras descrições médicas datam das décadas de 50 e 60, ainda de forma muito incipiente. Contudo, esses estudos iniciais contemplavam a ruptura do tendão Tibial Posterior e a instabilidade causada por esse evento como os responsáveis pelo desabamento do arco plantar. No entanto, somente a partir da década de 80, foi sendo estabelecida de maneira mais clara a relação do TP com a formação do pé plano, sendo então lançadas as bases para o esclarecimento dessa patologia.
Atualmente essa doença é conhecida com DEFORMIDADE COLAPSANTE PROGRESSIVA DO PÉ!

TENDÃO TIBIAL POSTERIOR E O PÉ PLANO
O Tendão Tibial Posterior origina-se na região póstero-lateral da perna, póstero-medial na fíbula e membrana interóssea, seguindo posteriormente ao maléolo medial, na região de dentro da perna, e se inserindo na tuberosidade navicular bem no centro do arco do pé. O suprimento de sangue para o tendão é mais pobre na área atrás do maléolo medial, tornando-o o local mais comum para as tendinopatias
Esse tendão (Figura 2) exerce o papel de principal supinador da articulação subtalar, sendo também um adutor do mediopé e um importante flexor plantar do tornozelo, contribuindo na estabilização dinâmica do arco longitudinal do pé (o cavo do pé). A figura 3 mostra os movimentos realizados por esse tendão.


MAS A LESÃO DO TENDÃO TIBIAL POSTERIOR EXPLICA TUDO?
A fisiopatologia é complexa e consiste não apenas na insuficiência tendínea do Tibial Posterior, mas também nas estruturas capsulares, ligamentares, ósseas e tendíneas do pé, levando a um espectro de deformidades com graus variados de valgo do retropé, pronação do mediopé e abdução do antepé, que em última instância, podem gerar deformidades e alterações degenerativas nas articulações do pé.

DR. RODRIGO MACEDO E O PÉ PLANO
– Aula em 2021 sobre atualização do tema no Instituto de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Assista a aula:






QUAIS SÃO AS OUTRAS ESTRUTURAS ENVOLVIDAS?
Ao longo dos anos, a melhor compreensão da biomecânica da marcha e do tornozelo e pé, demonstrou que a fisiopatologia da deformidade incluía outras estruturas que fazem parte da manutenção do arco medial, além do Tendão Tibial Posterior, que continua tendo papel central na estabilização dinâmica do arco, porém não está sozinho.
Outras Estruturas Envolvidas:
– Tendão Calcâneo (Aquiles)
Quando contraturado, em um retropé com alinhamento valgo, esse tendão, que é o mais forte do corpo, tem potencial de desviar o eixo de carga para medial durante a marcha, sobrecarregando as estruturas mediais do tornozelo e pé.

– Fáscia Plantar
A fáscia plantar é outra estrutura que tem papel relevante na manutenção do arco. Através do efeito molinete (Vídeo 1), quando ela é tensionada no momento do desprendimento do pé do solo, e os dedos estão estendidos, ela é tracionada e age na formação do arco do pé, tornando-o rígido para o indivíduo efetuar a passada.

– Ligamento Mola
PRINCIPAL ESTABILIZADOR ESTÁTICO É O LIGAMENTO CALCANEONAVICULAR PLANTAR, também conhecido como ligamento MOLA. Que através dos seus folhetos: Tibio Spring, Superomedial, Medioplantar e Plantar lateral, suportam da cabeça do tálus impedindo que ele se desloque plantar e medialmente, além de conter a abdução do médiopé.
Aliás, é interessante ressaltar que alguns trabalhos com modelos biomecânicos que lesaram isoladamente o ligamento mola ou Tendão Tibial Posterior demonstram que não ocorre imediatamente o colapso do arco. No entanto, após o emprego de cargas cíclicas, que simulam o caminhar, eles demonstraram fadiga das estruturas remanescentes, com colapso subsequente. Isso ressalta que há uma relação entre essas estruturas na manutenção do formato do pé.
Outros estudos que utilizaram ressonância magnética, compararam um grupo controle com pacientes que realizaram o exame devido a tendinopatia do Tibial Posterior. Esses trabalhos, revelaram uma alta proporção de lesão do ligamento mola, atingindo até 90% na soma dos componentes, entre os pacientes portadores de tendinopatia, demonstrando mais uma vez a relação íntima entre essas estruturas e uma provável ação em conjunto.

– Ligamento Deltóide
Além do ligamento mola, temos o ligamento deltóide, com seus folhetos superficial e profundo. O superficial (Fig. 6) controla: ABDUÇÃO. ROTAÇÃO EXTERNA DO TORNOZELO E O VALGO DO CALCÂNEO, enquanto que o profundo (Fig. 7) está associado principalmente ao controle do VALGO DO TÁLUS.


– Ligamentos Tarsometatarsais
Distais à articulação talonavicular, estão os ligamentos plantares, entre o navicular e as cunhas, bem como entre as cunhas e os metatarsasais. Por isso, essas estruturas também são importantes para a sustentação do arco. (Fig. 8)

– Formato da articulação subtalar
Além das partes moles, alguns estudos mais recentemente documentam ainda que uma alteração no posicionamento da articulação subtalar, com maior inclinação em valgo, pode também predispor ao colapso do pé. Isso ocorre pelo aumento das forças de tensão nas estruturas medias impostas por esse formato de articulação durante a carga.
QUAIS OS PRINCIPAIS SINTOMAS DO PÉ PLANO?
Nos quadros iniciais as queixas costumam ser inespecíficas, no entanto, na maior parte das vezes, o paciente localiza a dor no trajeto do tendão tibial posterior (figura 16) ou sobre as estruturas capsuloligamentares medias, tais quais deltoide e mola. Para saber mais, leia este artigo.
À medida em que a doença evolui e a deformidade progride podem ir ocorrendo:
- Queda do arco medial
- Abdução do mediopé
- Valgo do retropé
- Dor lateral abaixo da extremidade da fíbula
IMPORTANTE RESSALTAR QUE ESSAS DEFORMIDADES NÃO OCORREM EM UMA SEQUÊNCIA LÓGICA E PREVISÍVEL.

QUEM PODE DESENVOLVER O PÉ PLANO E QUAIS AS CAUSAS?
Esta condição ocorre mais comumente em pacientes com sobrepeso e em mulheres de meia-idade, estando relacionado com as mudanças hormonais que correm nesta fase da vida, nesta população. Neste grupo a tendinopatia pode acometer até 10% das mulheres. Além disso, outros fatores de risco conhecidos são a diabetes mellitus, hipertensão, injeção de esteróides ao redor do tendão, doenças autoimunes.
Fatores mecânicos também devem ser considerados. Forças anormais decorrentes de pés chatos leves podem resultar em maiores demandas ao longo da vida, assim como indivíduos que realizam traumas de repetição, seja por intensidade ou quantidade de treinamento com exercícios de impacto.

QUAIS EXAMES CONFIRMAM A PRESENÇA DO PÉ PLANO?
A investigação deve ocorrer através de um exame físico completo associado a exames de imagem, como raios X (figura 18) com carga do pé e tornozelo, bem como auxílio da ressonância magnética (imagem 19) e tomografia computadorizada em casos específicos.
Mais recentemente, a tomografia computadorizada com carga tem auxiliado na precisão da definição das deformidades, no entanto, esse método diagnóstico ainda não está disponível no Brasil.


QUAIS AS FORMAS DE TRATAMENTO DO PÉ PLANO?
Objetivos do tratamento:
- Aliviar a dor
- Melhorar a função,
- Restaurar o alinhamento
- Interromper ou retardar a progressão da doença
O manejo é ditado pelo estágio da doença, e vai variar desde exercícios e ajuste de calçados até diferentes tipos de procedimentos cirúrgicos, individualizados a depender do grau da deformidade, presença de artrose e demanda funcional do paciente, sendo definido após avaliação criteriosa, com decisões conjuntas entre médico e paciente.
ESTÁGIOS INICIAIS:
Fisioterapia motora associado a uso de calçados com solados mais firmes ou palmilhas nos pés flexíveis podem causar conforto e retardar a evolução da deformidade, controlando os sintomas em boa parte dos casos.

ESTÁGIOS MAIS AVANÇADOS:
Nos estágios mais avançados ou naqueles em que o tratamento conservador falhou, uma série de procedimentos ósseos e de partes moles se combinam, a depender da deformidade gerada pela doença para conseguir reestabelecer o alinhamento e melhorar os sintomas.

Figura 22 – Osteotomia de alongamento da coluna lateral. Esse procedimento corrige a abdução do médio pé.
Figura 23 – Artrodeses. Esses procedimentos são indicados nas deformidades mais graves, principalmente quando associadas a rigidez ou artrose das articulações.

O PÉ PLANO PODE ACOMETER O TORNOZELO?
Em casos mais avançados a articulação tibiotalar (tornozelo) pode sim ser acometido. Além disso, esse acometimento pode variar desde uma instabilidade articular até artrose avançada. Portanto, uma análise criteriosa sobre o tornozelo acometido deve ser sempre realizada para melhor tratamento desses pacientes.
VOCÊ APRESENTA SINAIS E SINTOMAS ASSOCIADOS AO PÉ PLANO?
Procure um ortopedista especialista em tornozelo e pés de confiança.
Portanto, sempre procure diagnóstico, orientações médicas e um plano de tratamento individualizado. O Núcleo de Ortopedia Especializada possui especialistas renomados em todas as áreas da ortopedia moderna.
RESUMO
O pé plano ou pé chato, ou deformidade colapsamte progressiva do pé ainda hoje é um desafio para ortopedia. O estudo e entendimento sobre a patologia vem avançando rapidamente nos últimos anos, e o entendimento sobre os componentes da patologia bem como novos exames de imagem, vem possibilitando novas intervenções e procedimentos.
REFERÊNCIAS
Progressive Collapsing Foot Deformity: Consensus on Goals for Operative Correction
Posterior tibial tendon insufficiency: which ligaments are involved?
FAQs
- O que define o pé plano?
O pé plano é uma deformidade complexa caracterizada que pode ser caracterizada pela queda do arco medial do pé (covinha do pé). Além dessa queda, o valgismo do retropé e a abdução do mediopé costumam estar presentes. No entanto, é possível que deformidades no hálux e no tornozelo também estejam associadas a essa patologia.
- Como corrigir o pé plano?
Inicialmente, o pé plano só deve ser abordado se o indivíduo apesentar sintomas. Quando isso ocorre, nos estágios iniciais, o ajuste e calçados ou uso de palmilhas podem ser suficientes para controlar os sintomas. Contudo, nos indivíduos que essas medidas não oferecem resultados, as cirurgias para correção da deformidade podem ser necessárias.
- Como é feita a cirurgia para correção do pé plano?
O mais importante nesses casos é definir onde estão localizadas as deformidades. A partir desse ponto, se define se essas deformidades são flexíveis ou rígidas ou se estão associadas a artrose. Dessa forma, com essas informações será definida se serão feitas osteotomias (cortes ósseos) ou artrodeses (fusões articulares). Para cada um dos sítios afetados existe um procedimento específico que pode ser realizado.




