Resumo
As fraturas do calcâneo podem ser lesões graves que apresentam alta complexidade no seu tratamento, abrangendo modalidades cirúrgicas e não cirúrgicas. O reconhecimento de causas comuns, fatores de risco e tipos de fraturas do calcâneo fornece uma compreensão para um diagnóstico preciso.
As intervenções cirúrgicas, guiadas por indicações e considerações de tempo, evoluíram com inovações, sendo a principal as técnicas minimamente invasivas.
Do ponto de vista funcional, os resultados podem deixar alguma rigidez ou dor. A evolução para artrose pós-traumática não é rara, e quando ocorre, podem ser indicados novos procedimentos cirúrgicos.
Fratura do Calcâneo, um Desafio Ortopédico
As fraturas do calcâneo representam um desafio ortopédico complexo devido, principalmente, à anatomia desse osso e ao fato de, em geral, serem fraturas relacionadas a traumas de alto impacto!

O calcâneo possui quatro articulações: as três subtalares além da calcaneocuboídea, associado a porosidade óssea (osso mais frágil) e condições de partes moles locais, fazem que as fraturas do calcâneo estejam entre as que mais afetam a qualidade de vida dos pacientes.
O calcâneo é uma estrutura óssea crucial para manter a estabilidade durante o caminhar. Então, compreender os detalhes das fraturas do calcâneo é fundamental para os médicos envolvidos no seu tratamento.

Como acontece a fratura do calcâneo?
A fratura do calcâneo está relacionada a queda de altura e traumas de alta energia, afetando cerca de 11 em cada 100.000 pessoas por ano ao redor do mundo e, em geral, é muito mais comum em homens do que mulheres, atingindo proporções de até 15:1 em algumas séries.
PRINCIPAIS CAUSAS DA FRATURA DO CALCÂNEO
- Queda de altura
- Acidentes com veículos automotores
- Traumas esportivos
- Lesões por esmagamento
Quais são os principais fatores de risco para um indivíduo ter uma fratura do calcâneo?
Osteoporose é sem dúvida um dos principais fatores. Sendo um osso que sustenta o peso do corpo, quanto mais frágil, maior a probabilidade de fraturar durante um trauma. Nesse sentido, indivíduos idosos têm um maior risco de evoluir com fratura com calcâneo mesmo com traumas menores;
Riscos Ocupacionais: trabalhadores que precisam ficar em alturas ou indivíduos que se expõem ao consertar telhados, lustres e atividades em escadas têm mais chances de cair sobre esse osso e fraturar o calcâneo. Além disso atividades recreativas ou esportivas tais como escalada também podem ser consideradas como de risco.
Principais sintomas na fratura do calcâneo
- Dor: A dor é o sintoma mais característico das fraturas do calcâneo. Ela costuma ser intensificada ao tentar apoiar ou deixar o pé pendente para baixo. Obviamente a intensidade da dor pode variar dependendo da extensão e do tipo de fratura.
- Edema: O inchaço é muito comumente observado ao redor do calcanhar e na parte lateral do pé em casos de fraturas do calcâneo. Ele indica envolvimento de tecidos moles e o calcanhar inchado é um sinal clínico crítico usado em conjunto com outros sintomas e ferramentas de diagnóstico para avaliar a extensão da lesão. Assim, o manejo eficaz geralmente inclui intervenções para tratar e reduzir esse inchaço, melhorando o conforto e a recuperação do paciente.
- Hematoma: Podem se desenvolver na presença de lesão associada de tecidos moles. Ele resulta da fuga de sangue para os tecidos adjacentes, fornecendo pistas visuais para os profissionais de saúde durante a avaliação.
- Deformidade: Em fraturas mais graves, pode-se observar uma deformidade, como o alargamento do calcanhar ou o varismo dele. Isso significa um posicionamento mais para dentro do calcanhar quando se observa o indivíduo de costas. Estas deformidades sugerem mudança da anatomia do calcâneo.
Portanto, na presença de um ou mais sintomas relacionados a fratura do calcâneo, não deixe de buscar um ortopedista especialista em pé e tornozelo o mais rápido possível.
Quais os principais exames para diagnosticar a fratura do calcâneo?
Atualmente, a tomografia computadorizada é uma das melhores ferramentas para entender esse tipo de fratura e planejar a reconstrução. A possibilidade de demonstrar detalhadamente cada um dos fragmentos, em múltiplos planos, permite que o cirurgião consiga efetuar um planejamento cirúrgico mais efetivo.


No entanto, as imagens de raios X continuam sendo uma ferramenta diagnóstica fundamental para avaliar fraturas do calcâneo, desempenhando um papel crucial na orientação das decisões de tratamento e na determinação do curso de tratamento apropriado, fornecendo informações iniciais sobre a extensão e configuração da fratura.

Como deve ser feito o tratamento de uma fratura do calcâneo?
Existem critérios muito bem definidos para se indicar uma cirurgia em um paciente portador de uma fratura do calcâneo. Entre eles estão:
- Grandes desvios dos fragmentos: As fraturas do calcâneo que demonstram deslocamento severo, particularmente quando envolvem a articulação subtalar, muitas vezes requerem redução e fixação cirúrgica. A gravidade do deslocamento pode comprometer o alinhamento do pé, afetando a sua função.
- Fraturas expostas: A intervenção cirúrgica é frequentemente indicada para fraturas expostas, pois elas representam um risco aumentado de infecção devido à exposição do local da fratura a contaminantes externos.
- Degraus nas articulações: A presença de degraus na superfície articular, particularmente aqueles que afetam a função e estabilidade articular, pode necessitar de correção cirúrgica. Os degraus intra-articulares podem levar a uma mecânica prejudicada, aumentando sobremaneira a possibilidade de artrite pós-traumática sintomática.
Em que momento operar?
Cirurgia precoce: A intervenção cirúrgica precoce deve ser considerada necessária em casos que envolvem fraturas expostas, comprometimento vascular e naqueles casos em que o grande edema e lesão das partes moles não está estabelecido. A grande vantagem nesse tipo de abordagem é a menor dificuldade para limpeza do foco de fratura e reposicionamento dos fragmentos, pois ainda se encontram “soltos”.
Cirurgia tardia: A cirurgia tardia envolve esperar até que o inchaço e a inflamação inicial dos tecidos moles diminuam. Este atraso permite uma melhor visualização do local cirúrgico, no entanto, os fragmentos em geral estão mais fixos e algumas vezes precisam ser “refraturados”.
“A grande questão é saber qual paciente se beneficiará com uma ou outra abordagem, sempre pesando os riscos e benefícios em questão.”
Quais as vias de acesso mais utilizadas? Existe espaço para técnicas minimamente invasivas?
As vias de acesso também são desafiadoras, principalmente devido a vascularização deficitária da região. A via clássica, também chamada de lateral ampla, tem o formato de uma letra L e permite boa visualização da lesão, entretanto, está associada a muitas complicações locais como necrose da ferida e infecção como demonstrado nas imagens abaixo.

Em contrapartida, a via do seio do tarso, ou minimamente invasiva, tem se mostrado uma excelente opção para a abordagem da fratura. Ela permite boa visualização dos fragmentos articulares, com um menor índice de complicações locais relacionadas a via. Além disso, essa via permite uma boa montagem dos fragmentos e fixação com parafusos ou placas bloqueadas, como demonstrado nas figuras abaixo.
Após o tratamento cirúrgico, é necessário um tempo sem realizar apoio total com o membro operado, enquanto vai evoluindo gradativamente nos exercícios de mobilidade e fortalecimento.
Nas fraturas mais graves, muitas vezes podem ser necessários outros procedimentos subsequentes como a fusão da articulação subtalar, quando esta evolui para um quadro de degeneração irreversível e doloroso.

O Dr. Rodrigo Macedo e a fratura do calcâneo
Em AGOSTO DE 2023 o Dr. Rodrigo Macedo participou como instrutor no curso de vias cirúrgicas no Miami Anatomical Research Center Institute, demonstrando a via do seio do tarso, minimamente invasiva, para abordagem das fraturas do calcâneo.


Exemplo de paciente com fratura articular do calcâneo, operado através de técnica minimamente invasiva através da via do seio do tarso, fixado com parafusos canulados.
Em geral, deve-se estimular a mobilidade o quanto antes, no entanto a carga, ou seja, liberação de peso demora em torno de 10 semanas, como na maior parte das fraturas relacionadas a traumas axiais no membro inferior.
O que acontece a longo prazo com os pacientes que tiveram uma fratura do calcâneo?
O acompanhamento a longo prazo deve incluir avaliações funcionais para avaliar a capacidade do paciente de realizar principalmente as atividades diárias e participar de atividades recreativas. Isso pois é uma fratura que, em geral, envolve a articulação, podendo manter algum grau de rigidez e até mesmo dor, variando entre os pacientes.
O monitoramento dos resultados funcionais ajuda os profissionais de saúde a adaptar estratégias de reabilitação, abordar limitações funcionais persistentes e otimizar a qualidade de vida geral do paciente no período pós-operatório prolongado.
Nesse contexto, fornecer educação contínua ao paciente é crucial durante o acompanhamento de longo prazo. Isto envolve discutir e reforçar as expectativas de longo prazo, bem como potenciais limitações e estratégias para manter a saúde dos pés. A educação do paciente contribui para a tomada de decisões informadas, incentiva a adesão às modificações recomendadas no estilo de vida e capacita os indivíduos a participarem ativamente nos seus cuidados contínuos, principalmente em relação a uso de calçados e escolha das atividades físicas a serem praticadas.
JÁ OPEREI A FRATURA DO CALCÂNEO MAS MANTENHO DOR, O QUE PODE ESTAR ACONTECENDO?
Como já dito anteriormente esse tipo de fratura pode ser um desafio, e várias são as causas que podem levar a sintomas dolorosos após esse tipo de lesão, dentre eles estão:
- Artrose
- Lesão dos tendões fibulares / aquiles
- Deformidade do calcâneo
- Proeminência dos implantes
- Lesão do nervo sural
A depender da causa pode-se buscar diferentes soluções para resolver as sequelas de uma fratura do calcâneo. Nesse contexto um bom exame físico associado a exames de imagem é suficientes para fechar um diagnóstico e traçar um plano terapêutico adequado.
VOCÊ APRESENTA UMA FRATURA DO CALCÂNEO?
Procure um ortopedista especialista em tornozelo e pés de confiança.
Sempre procure diagnóstico, orientações médicas e um plano de tratamento individualizado. O Núcleo de Ortopedia Especializada possui especialistas renomados em todas as áreas da ortopedia moderna.
Em caso de sintomas ou diagnóstico relacionado a uma fratura do calcâneo, entre em contato e agende uma consulta com o Dr. Rodrigo Macedo.
FAQs
Como tratar a fratura do calcâneo?
Pode-se tratar as fraturas do calcâneo com ou sem cirurgia. As principais indicações cirúrgicas são: Fraturas com grandes desvios (mesmo as extrarticulares), fraturas expostas, fraturas que apresentam degrau articular. No entanto, é importante realizar uma análise individual, levando em consideração as características e comorbidades do paciente em questão.
Quanto tempo demora para andar após uma fratura articular do calcâneo?
Em geral, apesar de a mobilidade dever ser estimulada o mais precoce possível, a carga, ou seja, liberação de peso no membro operado deve demorar em torno de 10 semanas para ser estimulada, assim como na maior parte das fraturas relacionadas a traumas axiais no membro inferior.
Como é a cirurgia para a fratura do calcâneo?
Quando indicada a cirurgia deve tentar reestabelecer os parâmetros anatômicos desse osso e suas articulações. Para isso, deve-se fazer uma incisão na pele até se ter acesso ao osso, nesse caso a via do seio do tarso ou minimamente invasiva costuma ser uma excelente indicação. Após isso os fragmentos devem ser reposicionados e fixados. As principais opções são os parafusos, pode-se utilizar as placas em alguns casos com muita fragmentação ou para conectar a parte posterior com a anterior desse osso.




